Esboço da mensagem pregada pelo autor
na Igreja Presbiteriana da Alvorada (SHC/N SQ 410 Área Especial s/nº -
Brasília/DF), por ocasião da “Semana com Propósitos”, realizada no período
de 8 a 14 de dezembro de 2013. A proposta desta semana é promover a análise de
como nossos propósitos devem ser firmados para a glória de Deus em quaisquer
aspectos da vida, tais como: vida pessoal, vida familiar, vida espiritual, vida
profissional, vida ministerial, vida financeira e os relacionamentos.
“Consagre ao Senhor tudo o que você
faz, e os seus planos serão bem-sucedidos.”
Provérbios 16:3
Não nos é suficiente identificar
propósitos. Devemos consagrá-los ao Senhor! Devo, inicialmente, destacar a
existência de uma perigosa dicotomia: O sagrado e o Secular. Qual a
consequência, ainda que sutil, que este tipo de pensamento pode ocasionar?
1. Isso pode nos conduzir a compreender a vida espiritual
como sendo unicamente possível de ser vivida no ambiente de uma comunidade
espiritual;
2. Isso pode nos conduzir a compreender que os demais
aspectos de nossa vida (familiar, profissional, emocional, etc.) podem ser
vividos sem qualquer submissão às verdades da Escritura.
Entretanto, o fim desta dicotomia está
explícito nas Escrituras; senão, vejamos:
“Portanto, quer comais, quer bebais ou
façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.”
I Coríntios 10:31
“E tudo o que fizerdes, seja em
palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a
Deus Pai.”
Colossenses 3:17
A vida espiritual deve permear todos os
aspectos de nossa vida, devendo ser compreendida como sendo “nossa vida”, e não
como sendo “um dos aspectos” de nossa vida. Muitos cristãos tendem a fazer uma
separação entre vida secular e vida espiritual. Como vimos, a Escritura declara
o fim desta dicotomia. Quais as implicações se eliminarmos esta dicotomia?
1. Tudo o que exercemos
na vida terá um valor sublime, pois passará a estar integrado com a vida
espiritual, tendo, por conseguinte, o propósito de glorificar a Deus;
2. Tudo o que era visto
na perspectiva do comum passará a ser visto na perspectiva do sagrado;
3. Todo trabalhador
passará a ser visto como um mordomo que serve a Deus.
Já abordamos que a nossa vida
espiritual não deve ser vista como um apêndice de nossa vida. A partir do
momento que nos rendemos ao senhorio de Cristo, temos uma “nova vida”, cujo
desenvolvimento está sujeito às leis que regem o Reino de Deus.
Minha tarefa nesta ocasião é
apresentar-vos, ainda que de forma inicial, um pequeno vislumbre da vida
profissional sob o enfoque bíblico, de modo que possamos glorificar a Deus. O
cristão precisa ter a consciência de que o seu trabalho não pode estar dominado
pelos seguintes males: vício de trabalhar, trabalho escravizador, primazia da
competitividade, culto do sucesso, materialismo, e culto da pessoa
autorrealizada.
Assim sendo, quero abordar apenas dois
aspectos do que poderíamos chamar de “A Teologia Bíblica do Trabalho”, de modo
que lhes apresentarei apenas um vislumbre deste tema tão amplo e maravilhoso:
I – O trabalho não é uma consequência
da queda do homem.
II – O trabalho é uma oportunidade para
o despertamento da generosidade.
I – O TRABALHO NÃO É UMA CONSEQUÊNCIA
DA QUEDA DO HOMEM.
Inicialmente, a narrativa da criação é
uma narrativa do trabalho divino. Alguns verbos descrevem este trabalho: criou
(Gn 1:1), pairava (Gn 1:2), disse (Gn 1:3), viu (Gn 1:4), chamou (Gn 1:5),
colocou (Gn 1:17), façamos (Gn 1:26) e abençoou (Gn 1:28). Um pouco mais
adiante, a narrativa da criação converte-se numa narrativa do trabalho humano;
senão, vejamos:
“Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e
o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.”
Gênesis 2:15
O verbo “cultivar” relaciona-se com a
cooperação humana na produção da vida, ao passo que o verbo “guardar”,
relaciona-se com a cooperação humana na preservação da vida. Esta era a
perspectiva inicial de Deus com relação ao trabalho, ou seja, uma atividade
voltada para o cultivo e a preservação da vida.
II – O TRABALHO É UMA OPORTUNIDADE PARA
O DESPERTAMENTO DA GENEROSIDADE.
O trabalho deve ser compreendido como
uma atividade que se destina a criar oportunidade para a generosidade. Caso
venhamos a trabalhar pautados na inclinação de nossa natureza caída, o egoísmo
característico desta natureza caída, nos conduzirá a trabalharmos com os olhos
fixos no “eu”, de modo a fazer com que valorizemos o que temos e o que
conquistamos pelo trabalho.
A Escritura, por outro lado,
desconectando-nos do egoísmo, evidencia que um dos objetivos que Deus intenta
alcançar em nossa vida por intermédio do trabalho é que sejamos generosos.
“Aquele que furtava não furte mais;
antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com
que acudir ao necessitado.”
Efésios 4:28
“Ora, aquele que dá semente ao que
semeia e pão para alimento também suprirá e aumentará a vossa sementeira e
multiplicará os frutos da vossa justiça, enriquecendo-vos, em tudo, para
toda generosidade, a qual faz que, por nosso intermédio, sejam
tributadas graças a Deus.”
II Coríntios 9:10-11
“Tenho-vos mostrado em tudo que,
trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e
recordar as palavras do próprio Senhor Jesus Mais bem-aventurado é dar que
receber.”
Atos 20:35
A generosidade tratará com a nossa
inclinação egoísta, de modo que aquilo que conquistamos e adquirimos pelo
trabalho seja visto como um recurso disponível para a prática da generosidade,
desconectando-nos do “eu” e promovendo nossa conexão com o outro.
Que o Espírito de Deus nos auxilie na
compreensão destas duas importantes vertentes da Teologia Bíblica do Trabalho.
O trabalho não é uma consequência da queda do homem, mas antes, uma atividade
voltada para o cultivo e a preservação da vida, um ato de cooperação com Deus
na condução dos rumos desta vida. Além disso, o trabalho é uma atividade
voltada para o despertamento da generosidade em nosso viver, de modo que
possamos militar contra a velha natureza que nos impõe uma vida egoísta.